Falar de clima na língua das pessoas

A ação climática só será verdadeiramente eficaz quando os seus conceitos forem compreendidos, apropriados e utilizados pelas comunidades.

Foi com este propósito que foi publicado o Glossário Multidialetal de Termos das Mudanças Climáticas em Cabo-verdiano, uma iniciativa desenvolvida no âmbito do Projeto Ação Climática no Ensino Superior, implementado pela Universidade de Cabo Verde (Uni-CV) com o apoio do Programa Ação Climática financiado pela Cooperação Luxemburguesa.

Comunicar para aproximar

Em temas tecnicamente complexos e transversais como as mudanças climáticas, a comunicação é tão importante quanto a ciência. Conceitos como adaptação, mitigação, erosão, seca, energia renovável ou inundação podem fazer parte do quotidiano das comunidades sem que, muitas vezes, essa terminologia específica para os descrever na língua cabo-verdiana seja recolhida e documentada, convertida em materiais de disseminação científica e disponibilizada ao público mais amplo.

Capa do Glossário Multidialetal

O glossário procura colmatar esta lacuna, tornando o conhecimento mais acessível, próximo e relevante para diferentes públicos. Baseada em trabalho de campo em linguística , a publicação valoriza a diversidade linguística de Cabo Verde, documentando e descrevendo o léxico climático nas variedades do Fogo, Santiago, São Nicolau, São Vicente e Santo Antão e providenciando os seus equivalentes em português.

A preservação climática é também preservação linguística, pois a perda da biodiversidade implica perda de termos e expressões linguísticas Reconhecer, nomear e descrever os fenómenos emergentes é o primeiro passo para a ação.

Professora Ana Karina Moreira

Uma metodologia científica ligada ao território

A elaboração do glossário foi coordenada pelas Professoras Dominika Swolkien e Ana Karina Moreira, linguistas da Uni-CV e investigadoras com vasta experiência no estudo da língua cabo-verdiana, incluindo a descrição das suas variedades dialetais e a investigação lexicográfica. A competência científica das coordenadoras , aliada ao trabalho de uma equipa de jovens investigadoras do curso de Licenciatura em Estudos Cabo-verdianos e Portugueses, assegurou a qualidade linguística e metodológica da publicação.

O trabalho assentou numa metodologia e instrumentos de recolha de dados linguísticos modernos, com missões de campo realizadas entre julho e setembro de 2025 em cinco ilhas. A equipa entrevistou falantes nativos em localidades urbanas, rurais, agrícolas, marítimas e costeiras, recorrendo a questionários preparados nas variedade linguísticas abrangidas e a imagens locais para estimular a identificação dos termos.

Cada entrada lexical apresenta a forma registada grafada em Alfabeto Cabo-verdiano (2009), a transcrição fonética em Alfabeto Fonético Internacional (AFI), a categoria gramatical, a variedade geográfica, sinónimos e outrasformas na língua cabo-verdiana , tradução em português e um exemplo real de utilização. Sempre que possível, foram incluídas imagens ilustrativas legendadas dos termos. Este rigor transforma o glossário numa obra de referência e num marco para a lexicografia cabo-verdiana.

Exemplo de entradas lexicais e imagens recolhidas no terreno

Conhecimento local para uma ação climática mais inclusiva

O glossário demonstra que a linguagem também faz parte da resposta aos desafios climáticos. Quando as pessoas conseguem relacionar conceitos científicos com palavras, expressões e referências do seu quotidiano, aumenta a capacidade de compreender riscos, participar nos processos de decisão e adotar medidas de adaptação mais adequadas às suas realidades.

Embora os estudos de lexicografia cabo-verdiana remontem ao século XIX, os dicionários publicados até ao presente têm-se centrado sobretudo na variedade de Santiago. Este Glossário vem preencher uma lacuna importante, ao propor, uma abordagem multidialectal, sustentada em dados de trabalho de campo, sendo um contributo para a documentação e o conhecimento da riqueza interna da língua cabo-verdiana.

Professora Dominika Swolkien

Ao apoiar esta iniciativa, o Programa Ação Climática reafirma o compromisso com uma ação climática centrada nas pessoas, que valoriza o conhecimento local e promove o acesso à informação em formatos adequados ao contexto linguístico cabo-verdiano. Porque agir contra as mudanças climáticas passa também por falar a língua das comunidades que convivem diariamente com os seus impactos

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