De professores a militares: o Programa de Ação Climática está capacitando para um Cabo Verde mais resiliente

De 5 a 7 de maio e depois de 13 a 15 de maio, decorreu a formação de formadores “Ação Climática AGORA”, organizada no âmbito do projeto de literacia climática do Programa de Ação Climática. Estas duas sessões, com três dias intensivos de cada, reuniram um grupo improvável de profissionais de todas as áreas, incluindo organizações juvenis, instituições públicas, professores e militares, todos empenhados num objetivo comum: reforçar a sua capacidade de agir e formar outros na resposta às alterações climáticas.

Do encontro específico de atores “não convencionais” esperava se novas ideias, sinergias e soluções para reforçar a resiliência climática de Cabo Verde.

Compreender o problema, agir com base em evidências

Antes de qualquer ação requer aprofundar-se no conhecimento do problema e suas causas. Assim a formação baseou-se em realçar as evidências científicas climáticas universalmente reconhecidas e empiricamente comprovadas, abordando o aquecimento global que se deve, em grande parte, às atividades humanas em escala global.

A formadora durante toda a sua explanação alertou que em Cabo Verde, esses impactos já são visíveis: aumento da intensidade e da frequência de eventos climáticos extremos resultantes do aumento das temperaturas e da diminuição ou aumento das chuvas, manifestando-se como ondas de calor, secas ou inundações.

Como um pequeno Estado insular, o país enfrenta vulnerabilidades cada vez maiores, que exigem respostas informadas, planejadas e sustentáveis. Nesse sentido, os participantes aprenderam a aplicar dados climáticos e cenários de vulnerabilidade local aos seus próprios setores, identificando pontos de entrada concretos para ação nos sistemas educacionais, na administração pública e em unidades operacionais, como as forças armadas, garantindo que a ação climática seja também justa e inclusiva, protegendo os grupos mais vulneráveis.

Esta abordagem permitiu que os participantes identificassem os nichos específicos nos quais suas habilidades poderiam ser úteis. Partindo desse princípio, o foco rapidamente se voltou para a ação, com uma análise dos seguintes pilares centrais: mitigação, adaptação e resposta a perdas e danos, utilizando exemplos concretos dependentes de políticas nacionais, como os compromissos assumidos no âmbito do Acordo de Paris, para soluções práticas no terreno.

Após esta transição um dos militares presentes lembrou que “os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) representam uma ferramenta notavelmente útil, uma espécie de bússola climática simplificada, que nos permite discernir onde nossa ação pode gerar o maior impacto”.

Da estratégia à ação local: governança e comunidades no centro

Um dos principais pontos fortes do programa de treinamento foi demonstrar que a ação climática não depende apenas de grandes decisões globais, mas da coordenação entre diferentes níveis e partes interessadas. Governo, setor privado e sociedade civil têm papéis complementares, e a eficácia das políticas depende de quão bem esses atores são coordenados. 

No entanto, foi no nível local que a mensagem ganhou significado real, pois ficou ainda mais claro que as comunidades são os agentes mais eficazes da resiliência climática; são elas que identificam os riscos, implementam soluções e garantem a sustentabilidade dessas ações. Independentemente da função social e profissional que desempenhamos, todos devemos estar comprometidos no combate às alterações climáticas, que a todos afetam, 

Planos de ação concretos para enfrentar desafios locais reais foram desenvolvidos pelos participantes, para fazer face à esta problemática como o reflorestamento, a gestão de recursos hídricos, construção de hortas comunitárias e projetos de energia limpa. 

Ao final do terceiro dia estava-se certo de que as políticas só ganham forma quando o envolvimento público entra em ação. Assim os participantes integraram com sucesso uma das mensagens centrais do treinamento: não se trata apenas de transmitir informações, trata-se de mobilizar pessoas para a ação climática o que exige engajamento, adaptação das mensagens a diferentes públicos e uso de ferramentas acessíveis.  

Dessa forma, os participantes aprenderam a interagir com cada plataforma de comunicação, sejam mídias tradicionais como televisão e rádio ou mídias sociais digitais, dependendo do público-alvo que desejavam alcançar. 

Um passo decisivo para um futuro mais resiliente 

Ao final da formação a formadora, Laura Pereira, salientou que “esses profissionais agora estão munidos das ferramentas para formar ainda mais seus colegas, o que significa que ainda mais professores e militares estarão mais bem preparados para os desafios apresentados pela crise climática e para os princípios fundamentais da ação climática, que poderão aplicar, dependendo de sua área de atuação ou especialidade”. 

Ao retornarem às suas organizações, os participantes foram incentivados a impulsionar iniciativas e integrar a ação climática em seu trabalho diário. Como ficou claro durante as sessões, a resposta às mudanças climáticas em Cabo Verde dependerá cada vez mais da capacidade coletiva de agir localmente, de forma coordenada e sustentada.  

 “O que mais me marcou nesta formação foi que ela mudou completamente a forma como vejo meu papel. Não estamos apenas preparando jovens para um mercado de trabalho em constante evolução, mas também para o agravamento do cenário climático. Agora me sinto muito mais responsável por incluir essas noções em nosso processo de formação, para que a próxima geração esteja mais bem preparada para responder a esses desafios”, concluiu o formando representante do Instituto do Emprego e Formação Profissional. 

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