Em que medida as políticas climáticas incorporam a perspetiva de género em Cabo Verde? Qual é a perceção da população cabo-verdiana sobre os impactos climáticos, numa perspetiva de género? Quais as melhores estratégias para uma governação climática mais direcionada, inclusiva e eficaz? Com base nestas questões de partida, o estudo “Género e Mudanças Climáticas em Cabo Verde” – realizado no âmbito do Protocolo assinado entre o ICIEG e o Programação Ação Climática – oferece uma análise detalhada da interseção entre as desigualdades de género e os impactos climáticos no arquipélago e apresenta um guia de boas práticas baseadas em casos impactantes no contexto internacional.
O Estudo foi estruturado de acordo com as seguintes fases complementares do ccGAP (modelo Climate Change Gender Action Plan), adaptadas à realidade de Cabo Verde:

Figura 1 Sequência de fases para a realização do Estudo
(Fonte: Pág. 23 do estudo Género e Mudanças Climáticas, 2025)
Das fases da realização do estudo, destacamos os encontros participativos para recolha de perceções, através de rodas de conversas nos municípios piloto do Programa Ação Climática (Brava, Praia, Boa Vista e Ribeira Brava) – envolvendo organizações da sociedade civil e estruturas locais – e o Workshop participativo com instituições públicas, sociedade civil e especialistas de género e clima, realizado no dia 13 de maio, na cidade da Praia.

Figura 2 – Foto Família – Workshop recolha subsídio estudo Género e Mudanças Climáticas, Praia.
Os resultados do estudo demonstram que Cabo Verde contém um quadro de governança climática nacional que reconhece a igualdade de género como princípio transversal, mas revela a necessidade da operacionalização desse reconhecimento, particularmente, através de indicadores, produção e uso de dados desagregados por género. No que diz respeito à perceção da população cabo-verdiana aos impactos climáticos, o estudo revela “uma clara consciência dos impactos climáticos, com destaque para os desafios específicos enfrentados pelas mulheres rurais. Estas enfrentam sobrecarga de trabalho não remunerado, dificuldades no acesso a água e alimentos, e exclusão dos processos decisórios. Apesar disso, reconhece-se que as mulheres possuem notória resiliência e conhecimentos práticos essenciais na gestão de recursos, emergindo como protagonistas nos processos de adaptação comunitária. Paradoxalmente, a sua participação em cargos de liderança permanece limitada devido a barreiras estruturais, alinhadas com uma estrutura patriarcal” (p. 11 do estudo).
A apresentação pública do estudo teve lugar no passado dia 08 julho, integrado no Fórum Género e Mudanças Climáticas, realizado nos dias 08 e 09 de julho, no Palácio de Governo, cidade da Praia. O Fórum hibrido (presencial e remota/online), realizado em parceria com o Programa Ação Climática e o SNAC (Secretariado Nacional para Ação Climática), foi palco da apresentação pública do estudo, contou com três painéis temáticos (com representantes das instituições públicas e organizações da sociedade civil), partilha de casos específicos de boas práticas da interseção género e mudanças climáticas (ex. Programa POSER e Movimento Eco feminismo) e uma conferência de encerramento com o renomado Prof. Doutor da UniCV e UFRGS, José Carlos dos Anjos.
Para finalizar, o estudo “evidencia que a plena integração da dimensão de género constitui condição fundamental para a eficácia e sustentabilidade das políticas climáticas em Cabo Verde. A análise qualitativa e os testemunhos recolhidos em campo demonstram que a equidade de género não é apenas uma questão de justiça social, mas um imperativo estratégico para a resiliência climática do país. As evidências apontam para o valor singular da experiência prática das mulheres – particularmente seu conhecimento íntimo das dinâmicas familiares e comunitárias – na construção de soluções adaptativas eficazes face às mudanças climáticas” (p. 13). Assim considerando que a Ação é Agora, “ignorar a interseção entre género e clima significaria desperdiçar uma oportunidade estratégica para fortalecer a resiliência nacional. A plena participação de todos os cidadãos, independentemente do género, é condição indispensável para um desenvolvimento sustentável e economicamente robusto face às crises climáticas crescentes” (idem).

Figura 2 Mónica Furtado (Social3, empresa responsável pela realização do estudo e Anilsa Gonçalves (coordenadora do ICIEG), durante a apresentação público do estudo, no Fórum Género e Mudanças Climáticas.
Autoria
Anilsa Gonçalves, PhD
Coordenadora Autonomia na Tomada de Decisões do ICIEG