As mudanças climáticas e as emissões de gases com efeito de estufa têm provocado um aumento da intensidade e da frequência dos fenómenos climáticos que estão na origem de muitas emergências de saúde pública(1–3), tanto catástrofes locais como processos globais que envolvem riscos difíceis de gerir e compreender(4,5), ameaçando centenas de milhões de pessoas no mundo. Esses fenômenos são impulsionados por condições de vida precárias enfrentadas por grande parte da população, frequentemente combinadas com desastres naturais e tecnológicos, seguidos por crises humanitárias ou conflitos(2). Atualmente, a sociedade enfrenta simultaneamente três grandes emergências: 1) a crise sanitária, 2) a crise da perda de biodiversidade e 3) a crise climática(6). Estas crises estão profundamente interligadas, mas apresentam ritmos distintos: enquanto uma crise sanitária pode durar alguns anos, os impactos das mudanças climáticas perduram por séculos, e a perda de biodiversidade é irreversível(7,8).
Cabo Verde está entre os países mais vulneráveis aos efeitos das mudanças climáticas, apesar de ser um dos que menos contribui para as emissões globais de gases com efeito de estufa. Localizado na faixa do Sahel, o arquipélago enfrenta desafios crescentes como a elevação das temperaturas médias, a escassez hídrica prolongada, a acidificação dos oceanos e a intensificação de eventos climáticos extremos como secas severas e inundações repentinas(9). Esses fenômenos afetam de forma desigual diferentes grupos da população, intensificando vulnerabilidades socioeconômicas e sanitárias já existentes, especialmente entre mulheres, crianças, idosos, pessoas com deficiência e populações de baixa renda.
No país, as desigualdades de género tornam-se ainda mais evidentes em contextos de crises climáticas. As mulheres, muitas vezes encarregadas de funções de cuidado – como a gestão do lar, a assistência a crianças e idosos, e a busca por água, energia e alimentos – enfrentam desafios agravados pela sobrecarga de trabalho, pelo acesso limitado a recursos financeiros e pela exclusão das decisões comunitárias e políticas(10). A precarização do trabalho, a insegurança alimentar e o aumento da violência baseada no género em contextos de crise climática aprofundam a “feminização” da pobreza. Crianças, especialmente as meninas, enfrentam riscos acrescidos de desnutrição, evasão escolar e doenças evitáveis. Homens, por sua vez, estão frequentemente expostos a ambientes de trabalho perigosos, como construção civil, pesca e agricultura, o que impacta diretamente sua saúde física e mental em um cenário de instabilidade climática.
Nesse contexto, o Plano Nacional de Adaptação da Saúde às Mudanças Climáticas (PNASMC 2023–2027) e o roteiro do Ministério da Saúde para um sistema de saúde de baixo carbono representam oportunidades estruturantes para transformar o setor da saúde em Cabo Verde. As diretrizes desses instrumentos orientam ações specíficas como:
- Alinhamento com a Agenda 2030 dos ODS, com ênfase na igualdade de gênero para saúde e desenvolvimento sustentável.
- Reconhecimento da vulnerabilidade diferenciada por gênero às mudanças climáticas, incorporada nas estratégias nacionais.
- Promoção de ações inclusivas e sensíveis ao gênero, considerando também grupos vulneráveis.
- Inserção transversal da dimensão de gênero em projetos para captação de financiamento internacional.
- Desenvolvimento de programa nacional de adaptação no setor saúde, contemplando vulnerabilidades por gênero, idade e condição individual.
- Incentivo à pesquisa sobre práticas comunitárias, gênero e necessidades especiais.
- Integração dos riscos climáticos nos planos nacionais e municipais de saúde, com enfoque nas especificidades de gênero e grupos vulneráveis.
- Reforço da vigilância epidemiológica climática, capacitação profissional, sistemas de alerta precoce, sustentabilidade das infraestruturas e participação comunitária nas estratégias adaptativas.
Essas políticas só serão eficazes se integradas a uma abordagem interseccional que reconheça as múltiplas formas de desigualdade que moldam a exposição, a vulnerabilidade e a capacidade de resposta aos impactos das mudanças climáticas. É essencial incorporar indicadores de género e de equidade social na monitorização dos riscos e impactos climáticos, promover a liderança feminina e comunitária na gestão da saúde e do clima, garantir financiamento adequado e construir pontes entre conhecimento técnico-científico e saberes locais.
A crise climática é também uma crise de justiça: não basta mitigar emissões e adaptar infraestruturas se não forem consideradas as desigualdades históricas e estruturais que fazem com que determinados grupos sofram mais que outros. Um sistema de saúde resiliente, equitativo e adaptado ao clima é condição indispensável para promover o bem-estar coletivo, prevenir doenças e proteger a vida em um planeta em transformação.
Referências:
1. Bikomeye JC, Rublee CS, Beyer KMM. Positive Externalities of Climate Change Mitigation and Adaptation for Human Health: A Review and Conceptual Framework for Public Health Research. Int J Environ Res Public Health. 3 de março de 2021;18(5):2481.
2. Silva MA da, Xavier DR, Rocha V. Do global ao local: desafios para redução de riscos à saúde relacionados com mudanças climáticas, desastre e Emergências em Saúde Pública. Saúde Em Debate. 5 de julho de 2021;44:48–68.
3. Anstey MHR. Climate change and health–what’s the problem? Glob Health. 9 de fevereiro de 2013;9:4.
4. Limaye VS. Making the climate crisis personal through a focus on human health. Clim Change. 2021;166(3–4):43.
5. Rossa-Roccor V, Giang A, Kershaw P. Framing climate change as a human health issue: enough to tip the scale in climate policy? Lancet Planet Health. 1 de agosto de 2021;5(8):e553–9.
6. Artaxo P. As três emergências que nossa sociedade enfrenta: saúde, biodiversidade e mudanças climáticas. Estud Av. 11 de novembro de 2020;34:53–66.
7. VAN Schalkwyk MC, Maani N, Cohen J, McKee M, Petticrew M. Our Postpandemic World: What Will It Take to Build a Better Future for People and Planet? Milbank Q. junho de 2021;99(2):467–502.
8. Snyder BD. The climate emergency: where is health care? J Public Health Policy. março de 2020;41(1):24–7.
9. Mbaye AA, Signé L. Climate change, development, and conflict-fragility nexus in the Sahel [Internet]. Brookings. 2022 [citado 5 de julho de 2025]. Disponível em: https://www.brookings.edu/articles/climate-change-development-and-conflict-fragility-nexus-in-the-sahel/
10. Matos PA, Garcia GAF, Santos MA dos. O papel do gênero na mitigação e adaptação às mudanças climáticas em cabo verde. Veredas Direito. 4 de dezembro de 2023.